Gestão de bibliotecas

O que é Koha: o sistema de biblioteca de código aberto, explicado

Origem na Nova Zelândia, governança comunitária, arquitetura técnica e módulos do primeiro sistema integrado de gestão de bibliotecas de código aberto do mundo.

BiblioLabTech · 6 de novembro de 2026 · 10 min de leitura

Entender o que é Koha começa por um fato: Koha é o primeiro sistema integrado de gestão de bibliotecas de código aberto do mundo e continua entre os mais usados. É o software que administra o catálogo, os empréstimos, as aquisições e o acesso público de bibliotecas públicas, escolares, especializadas e universitárias em dezenas de países. Não tem um dono comercial, não cobra licença e pode ser instalado, modificado e auditado livremente. Este guia conta de onde o Koha vem, como ele é construído por dentro, quais módulos inclui de verdade, como se compara a outros sistemas de gestão de bibliotecas e o que uma biblioteca contrata para colocá-lo em produção, sem números que não possam ser verificados.

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Origem: uma encomenda real de uma biblioteca da Nova Zelândia

O Koha nasceu de um problema concreto, não de um plano de negócios. A Horowhenua Library Trust (HLT), na Nova Zelândia, usava um sistema integrado de gestão de bibliotecas com mais de doze anos que já não recebia desenvolvimento. O sistema não estava preparado para a virada do milênio (o famoso bug do ano 2000) e já não atendia ao que a biblioteca precisava; comprar um sistema novo no mercado exigia um investimento que a HLT não tinha como assumir.

A solução foi escrever um sistema próprio. A HLT encomendou o desenvolvimento à empresa neozelandesa Katipo Communications, que o construiu no último trimestre de 1999. O sistema entrou em produção em 1º de janeiro de 2000. A HLT e a Katipo tomaram então a decisão que definiu o futuro do projeto: liberar o código sob a GNU General Public License (GPL), para que qualquer outra biblioteca pudesse usá-lo, modificá-lo e contribuir com seu desenvolvimento. O nome escolhido, Koha, é uma palavra maori que significa “presente” ou “doação”, uma referência direta a essa decisão de entregar o software à comunidade. No mesmo ano, o projeto recebeu o prêmio 3M de inovação em bibliotecas e um prêmio na categoria comunitária e sem fins lucrativos do ANZ Interactive Awards.

De projeto neozelandês a comunidade global

O desenvolvimento não ficou na Nova Zelândia. A partir de 2000, empresas de vários países passaram a oferecer suporte comercial ao Koha; hoje são mais de cinquenta, e a BiblioLabTech é uma delas. Uma contribuição decisiva veio em 2001, quando o desenvolvedor francês Paul Poulain começou a acrescentar funcionalidades importantes, sendo a principal o suporte a vários idiomas: em 2010, o Koha já estava traduzido do inglês original para francês, chinês, árabe e outras línguas. O suporte aos padrões bibliográficos MARC e ao protocolo de busca Z39.50 chegou em 2002, um passo fundamental para que o Koha pudesse conversar com o restante do ecossistema bibliotecário mundial. Hoje, o projeto de tradução da comunidade (translate.koha-community.org) mantém a interface também em português do Brasil e em português de Portugal.

O Koha não tem uma empresa proprietária. Ele é governado por uma comunidade internacional formada por bibliotecas de todos os tipos e tamanhos, desenvolvedores voluntários e as empresas que oferecem suporte comercial, coordenada pelo koha-community.org. Qualquer pessoa pode propor mudanças, relatar erros ou contribuir com código, e as decisões sobre os rumos do projeto são tomadas em fóruns abertos da comunidade, não na sala de reuniões de uma única empresa. Essa é a diferença estrutural mais importante em relação a um ILS proprietário e a razão pela qual nenhum fornecedor, nem mesmo um que ofereça “sua versão” do Koha com módulos próprios, pode cobrar pelo software em si: apenas pelos serviços em torno dele.

O que é Koha e o que ele não é

  • É um sistema integrado de gestão de bibliotecas (SIGB, ou ILS em inglês): centraliza catalogação, circulação, aquisições e o catálogo público em uma única plataforma web.
  • Não é um repositório institucional como o DSpace: o Koha não foi projetado para preservar teses, artigos ou dados de pesquisa em acesso aberto, nem para ser coletado por agregadores acadêmicos. Se a sua instituição precisa das duas coisas, biblioteca física e repositório acadêmico, o normal é operar os dois sistemas em paralelo. Para entender essa outra peça, leia o que é DSpace.
  • Não depende de um único fabricante: por ser código aberto sob GPL, qualquer fornecedor pode implantá-lo, personalizá-lo ou dar suporte, o que evita o aprisionamento tecnológico (vendor lock-in) típico do software proprietário.

Arquitetura técnica: como o Koha é construído por dentro

O Koha é uma aplicação web escrita principalmente em Perl, com banco de dados relacional MySQL ou MariaDB (o MariaDB é a opção recomendada nas instalações modernas). Os registros bibliográficos são armazenados em formato MARC, por padrão MARC21, embora o sistema também suporte UNIMARC, e ficam acessíveis pelos protocolos padrão Z39.50 e SRU, o que permite importar e exportar catálogos entre bibliotecas de qualquer país.

Para indexação e busca, o motor original, e ainda o padrão, é o Zebra. Com o tempo, o projeto incorporou o Elasticsearch (e, mais recentemente, o OpenSearch) como alternativa, pensada para instalações maiores ou que precisam de buscas mais flexíveis; a escolha entre um e outro é feita na configuração do sistema. O restante da infraestrutura moderna inclui componentes de desempenho como o Memcached e o Plack e, nas instalações mais recentes, um gerenciador de filas como o RabbitMQ para processar tarefas em segundo plano, como o envio em massa de notificações.

Essa pilha (Perl, MariaDB, Zebra ou Elasticsearch) é mais leve que a de um repositório como o DSpace (Java, PostgreSQL, Solr, Angular), o que na prática significa requisitos de servidor mais acessíveis. Isso não quer dizer que operar o Koha em produção dispense experiência: configurar índices, administrar atualizações e personalizar templates continua exigindo conhecimento especializado, e é por isso que muitas bibliotecas preferem suporte gerenciado a operá-lo com equipe própria. Comparamos os dois caminhos em hospedagem Koha: nuvem gerenciada ou servidor próprio.

Os módulos do Koha

O Koha reúne em um único sistema funções que muitas bibliotecas pequenas ainda controlam separadamente ou em planilhas:

Módulo O que faz
Catalogação Criação e edição de registros bibliográficos em MARC21 ou UNIMARC, com autoridades, classificação e catalogação cooperativa via Z39.50 e SRU
Circulação Empréstimos, devoluções, renovações, reservas e multas, com regras configuráveis por categoria de usuário e tipo de material
Aquisições Fornecedores, orçamentos e pedidos de material novo, com acompanhamento de todo o ciclo de compra
Periódicos Gestão das publicações seriadas da biblioteca
Usuários Cadastro de leitores com perfis diferentes (estudantes, professores, público em geral), histórico de empréstimos e notificações automáticas
OPAC Catálogo público on-line, responsivo e personalizável, onde o usuário pesquisa, vê a disponibilidade, faz reservas e acompanha sua conta
Relatórios Consultas prontas e relatórios personalizados sobre circulação, acervo e uso, úteis para justificar orçamento e decidir aquisições

Um traço que distingue o Koha de muitos sistemas proprietários é que esses módulos não são produtos separados vendidos à parte: vêm integrados em uma única base de código desde a instalação. Isso simplifica a manutenção, porque não há atualizações de módulos comprados em momentos diferentes para sincronizar, e significa que ativar ou desativar funções depende da configuração do sistema, não de negociar com um fornecedor qual pacote comprar. Além dos módulos centrais, o Koha traz recursos que muitas bibliotecas deixam de aproveitar por desconhecimento: reservas entre unidades em consórcios de bibliotecas, notificações automáticas por e-mail e SMS e uma API para integração com outros sistemas acadêmicos ou de identidade institucional.

Adoção: quem usa o Koha e em que escala

Os números de adoção do Koha variam conforme a fonte, porque não existe uma contagem oficial única e centralizada no koha-community.org. Todas as fontes, porém, apontam para uma adoção ampla e contínua desde 2000. Estudos e diretórios especializados, como o Library Technology Guides, documentam vários milhares de instalações registradas no mundo, e fornecedores comerciais estimam números maiores quando se somam instalações não declaradas formalmente.

O que está bem documentado são casos concretos de adoção em grande escala. Em 2014, a Turquia adotou uma versão adaptada do Koha para automatizar 1.136 bibliotecas públicas, com mais de 17 milhões de itens e cerca de 2 milhões de usuários: uma das maiores implantações documentadas de um ILS de código aberto no mundo. Sustentar esse volume exige um motor de indexação e um banco de dados capazes de suportar carga real, e é a mesma razão técnica pela qual o projeto foi incorporando o Elasticsearch como alternativa ao Zebra.

Por tipo de instituição, o Koha é usado em bibliotecas públicas, escolares e especializadas e também em bibliotecas acadêmicas de diferentes portes, incluindo grandes universidades. A literatura especializada o descreve como o principal ILS de código aberto, especialmente no mundo em desenvolvimento, com várias iniciativas de automação de bibliotecas em escala nacional.

Por que o projeto não desapareceu

A história do software livre está cheia de projetos promissores abandonados quando o criador original perdeu o interesse ou o financiamento. O Koha escapou desse destino por uma combinação de fatores. Primeiro, a decisão da Horowhenua Library Trust de licenciá-lo sob GPL, em vez de manter um desenvolvimento fechado e sob medida, permitiu que outras instituições e empresas investissem no projeto sem depender da HLT. Segundo, a chegada de colaboradores externos com capacidade técnica real, como Paul Poulain na França, mostrou que o projeto podia crescer além do país de origem. Terceiro, o surgimento precoce de um mercado de suporte comercial, com empresas que cobram para instalar, migrar e manter o Koha sem serem donas do código, deu ao projeto um modelo econômico sustentável sem venda de licenças, algo ainda pouco comum em software de bibliotecas no ano 2000.

Koha frente a outros sistemas de gestão de bibliotecas

A decisão real de uma biblioteca não é “Koha sim ou não” em abstrato, e sim Koha frente a um punhado concreto de alternativas, cada uma com um modelo diferente:

Alternativa Modelo Quando faz sentido frente ao Koha
Sistemas proprietários (licença comercial) Software fechado, com licença anual ou perpétua paga a um fabricante único, que também controla o roteiro de desenvolvimento e o suporte Instituições que priorizam um único interlocutor contratual e preferem não depender da capacidade de um fornecedor de serviços sobre software aberto
Outros ILS de código aberto (Evergreen, entre outros) Mesmo modelo de licenciamento aberto, com comunidades e ecossistemas de suporte diferentes e, em geral, bem menores Casos com requisitos muito específicos de grandes consórcios de bibliotecas, nos quais esse projeto tem uma base de adoção própria
Desenvolvimento próprio Construir um sistema sob medida do zero, como fez a Horowhenua Library Trust em 1999 Quase nunca é a opção razoável hoje: refazer mais de 25 anos de funcionalidades já resolvidas no Koha raramente se justifica

A vantagem do Koha sobre outros ILS de código aberto não é só técnica, é de ecossistema: tem a maior comunidade de desenvolvimento da sua categoria, o maior número de fornecedores de suporte comercial em diferentes países e mais de 26 anos de continuidade, o que reduz o risco de abandono, um risco real em software de nicho com comunidades pequenas. Para uma comparação mais ampla, incluindo o modelo proprietário, veja o guia sistema de gestão de bibliotecas: o que é e como escolher.

Quem pode implantar o Koha e o que se contrata

Como acontece com qualquer software de código aberto, nenhuma empresa vende licenças do Koha, porque elas não existem: o software é baixado livremente. O que uma biblioteca contrata é o serviço em torno dele: instalação e configuração inicial, migração do catálogo a partir do sistema anterior, personalização de templates e regras de circulação, hospedagem (na nuvem ou em servidor próprio) e suporte contínuo para incidentes e atualizações de versão. É o mesmo princípio que vale para o DSpace, e por isso o mercado de fornecedores de Koha se parece mais com o de serviços profissionais do que com o de venda de produto. A própria comunidade avisa que nenhuma organização pode se apresentar como fornecedora oficial do Koha.

A BiblioLabTech implanta o Koha para bibliotecas universitárias, escolares e públicas, incluindo migrações a partir de sistemas proprietários e atualizações de versões antigas sem perda de dados históricos. Todo projeto de Koha da BiblioLabTech inclui, sem custo adicional, o BiblioScan AI, ferramenta de catalogação assistida por IA que transforma fotos da capa, da folha de rosto e do sumário em um rascunho de registro MARC21 que o catalogador revisa e aprova. A Escuela Colombiana de Ingeniería Julio Garavito, na Colômbia, opera seu catálogo Koha com esse fluxo, em um servidor dedicado administrado pela BiblioLabTech (veja o caso).

Se a sua biblioteca já tem um sistema e avalia trocar, o caminho está em como fazer a migração para o Koha; se está dimensionando orçamento, a estrutura de custos está em quanto custa implantar o Koha. E se ainda não está claro se o Koha resolve o seu caso, pelo tamanho do acervo, pelo número de unidades ou pelas integrações necessárias, o mais eficiente é alguém analisar a situação real: pelo nosso serviço de Koha, fazemos esse diagnóstico inicial sem custo, com atendimento em português.

O Koha é software livre, desenvolvido e mantido pela sua comunidade internacional em koha-community.org.

Perguntas frequentes sobre Koha

O que é Koha, exatamente?

Koha é um sistema integrado de gestão de bibliotecas (SIGB, ou ILS em inglês) de código aberto: o software que centraliza catalogação, circulação, aquisições e o catálogo público de uma biblioteca. Foi o primeiro ILS de código aberto do mundo, criado na Nova Zelândia e em produção desde 1º de janeiro de 2000, e é mantido por uma comunidade internacional sob a licença GNU GPL.

De onde vem o nome Koha?

Koha é uma palavra maori que significa “presente” ou “doação”. O nome foi escolhido pela Horowhenua Library Trust, na Nova Zelândia, como referência à decisão de liberar o software sob a licença GPL, para que qualquer biblioteca do mundo pudesse usá-lo, modificá-lo e contribuir com o seu desenvolvimento.

Quem criou o Koha?

A Horowhenua Library Trust, da Nova Zelândia, encomendou o desenvolvimento do Koha à empresa Katipo Communications em 1999, para substituir um sistema com mais de doze anos que já não recebia desenvolvimento e não estava preparado para o ano 2000. O Koha entrou em produção em 1º de janeiro de 2000 e foi liberado como software livre.

O Koha tem custo de licença?

Não. O Koha é distribuído sob a licença GNU GPL, então o software em si é gratuito, sem limite de usuários, de registros ou de unidades. O que uma biblioteca contrata de um fornecedor é a implantação, a migração de dados, a hospedagem, o treinamento e o suporte técnico. Na BiblioLabTech, todo projeto de Koha inclui também o BiblioScan AI, sem custo adicional.

Em que linguagem o Koha é escrito?

O Koha é escrito principalmente em Perl. O banco de dados é MySQL ou MariaDB, sendo o MariaDB o recomendado nas instalações modernas, e a indexação e a busca ficam a cargo do Zebra, o motor padrão, ou, opcionalmente, do Elasticsearch ou do OpenSearch. Tudo roda em Linux, sem licenças de sistema operacional nem de banco de dados.

Koha e DSpace são a mesma coisa?

Não. O Koha é um sistema de gestão de bibliotecas para catálogo, empréstimos e circulação do acervo. O DSpace é um repositório institucional para preservar e dar acesso aberto à produção acadêmica, como teses, artigos e dados de pesquisa. Muitas instituições usam os dois em paralelo, e a BiblioLabTech implanta e integra ambos.

O Koha serve para grandes bibliotecas universitárias?

Sim. O Koha é usado em pequenas bibliotecas públicas, escolares e especializadas, mas também em bibliotecas acadêmicas de grandes universidades e em implantações de escala nacional. Em 2014, a Turquia adotou uma versão adaptada do Koha para automatizar 1.136 bibliotecas públicas, com mais de 17 milhões de itens e cerca de 2 milhões de usuários.

Quem pode implantar o Koha na minha biblioteca?

Qualquer fornecedor especializado, em qualquer país, porque o Koha é aberto e não depende de um fabricante único; não existe fornecedor oficial. A BiblioLabTech implanta, migra, hospeda e dá suporte ao Koha de forma remota, com atendimento em português, e inclui o BiblioScan AI em todo projeto. A Escuela Colombiana de Ingeniería Julio Garavito opera seu catálogo Koha com essa solução.

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